O ano é 1921. O mundo ainda cura as feridas da Primeira Grande Guerra. Nesta altura, Silvares é já uma das mais antigas aldeias do concelho do Fundão com registos históricos que remontam a algo tão longícuo como 1226,  assim diz um excerto do texto econtrado nos documentos de doação da Lardosa aos Templários. Vive-se do campo mas também do trabalho nas Minas da Panasqueira. Pela vontade de um povo, mas principalmente de um homem o Padre José Lopes de Assunção pároco de Silvares e natural de São Vicente da Beira, nasce a Filarmónica Silvarense – Associação 8 de Dezembro. Juntando alguns dos notáveis da terra assim criou a primeira direção desta associação que já não era a primeira a ser fundada na freguesia. A ainda hoje existente Irmandade das Almas, foi criada numa data que se dissolveu no tempo e nos documentos religiosos perdidos ou pura e simplesmente destruídos, quer pela incúria dos homens como pelos movimentos revolucionários tais como a Implantação da República.

 Os homens que integravam essa direção eram:

Na altura as condições de acolhimento a bandas de outras localidades que vinham a Silvares abrilhantar as festas populares eram precárias ou mesmo inexistentes.As noites eram muitas vezes passadas em palheiros sem qualquer comodismo. Segundo testemunho do Srº. Casimiro Brasinha aos alunos da EB2º e 3º ciclo de Silvares, a banda também foi criada como o propósito de ocupar os tempos livres dos jovens da aldeia que passavam as noites a vaguear, cantando até de madrugada.

A ideia de uma banda já andava na mente Pároco da freguesia desde 1919 embora não acreditasse que os rapazes conseguissem aprender solfejo. Mesmo assim, as primeiras aulas foram ministradas pelo próprio Padre e que durante algum tempo ocupou uma divisão da casa que é hoje pertença dos herdeiros do falecido Sr. Abílio Ladeira.

De sol a sol

As expectativas foram largamente superadas sendo o entusiasmo e empenho dos “aprendizes” muito superior ao esperado. De facto, a vontade de aprender era tanta que o Sr. Padre não tinha capacidade mas sobretudo conhecimentos musicais suficientes para poder continuar com a formação. Conhecendo os seus limites, convidou um colega, o Sr. Padre José Maria da freguesia de Bogas de Baixo para terminar a formação dos muitos e entusiasmados músicos. O Padre José Maria trouxe ainda alguns instrumentos, já velhos que pertenciam à banda de Bogas de Baixo, para que os músicos pudessem começar a tirar escalas. Nesse tempo não havia a facilidade de transportes de hoje em dia que situação que obrigou o Padre José Maria a, também ele, abandonar o projeto.

A comissão decidiu então chamar um maestro, Ernesto Hipólito de Jesus e sapateiro de profissão, para continuar a ensaiar os jovens e também os “menos” jovens.

O acolhimento do maestro era uma simples divisão do palheiro, que também servia de ensaio, e onde ele também exercia a sua profissão.

Quanto aos instrumentos eram poucos mas sobretudo muito velhos. Aproveitando o fim de atividade de uma das duas bandas que existiam no Castelejo, foi tomada a decisão de comprar o instrumental que fazia parte do espólio. Foram muitos ensaios, horas de aprendizagem e sacrifícios. A maioria dos elementos eram agricultores que trabalhavam de sol a sol e só podiam ensaiar à noite, à luz da vela, e aos domingos pela tarde. Foi nas “Endoenças” do ano de 1921 que as ruas da povoação se encheram de notas musicais saídas de instrumentos tocados por Silvarenses.

O sonho da banda da terra passou a realidade.

Nesse mesmo ano além das festas em Silvares ainda se abrilhantaram as festas das localidades vizinhas do Ourondo e Barroca do Zêzere.

Uma bola na frente

Com as primeiras festas surge também o primeiro fardamento que “era lindo, todo azulinho, e os barretes tinham uma bola na frente“ tal como contou o muito emocionado “ Ti ” Casimiro, Como também não podia deixar de ser, e como era hábito nessa época, a instituição tinha de ter padrinhos, foi então escolhida a D. Lucília Fabião filha do Sr. Fabião um dos fundadores e o Sr. Dr. Jaime Crespo Pignatelli.

 A banda era formada por 29 elementos mas os instrumentos apenas 21, não chegavam para todos e assim foi durante quase um ano. Mas a receita das festas não chegava para as despesas e assim, tal como na angariação de dinheiro para o fardamento, foi a ajuda da população a chave para resolução do problema. Foi organizado um cortejo e encenadas peças de teatro que resultaram na compra de instrumentos novos e usados.

Em 1924 a banda do Castelejo, a quem se tinha comprado o instrumental, voltou a iniciar a atividade. Tendo uma atuação mas não tendo fardamento disponível, foi feito um pedido de empréstimo do mesmo á direção da Banda de Silvares que foi aceite, apesar da oposição dos músicos. Surge assim o primeiro desentendimento e que levou mesmo ao abandono de alguns elementos. A farda foi cedida mas a banda parou.

Muito pouco tempo depois os músicos voltaram a juntar-se e elegeram nova direção, presidida pelo Sr. António Morgadinho. Fazem-se novas fardas mas desta vez, em tons mais claros.

Algum tempo depois a banda é “corrida do palheiro” e vai para uma casa na pedreira. É ainda eleita uma nova direção devido ao abandono da anterior. Mais uma vez é obrigada a fazer mudanças e vai para uma casa (residência da família Barroca Gil) e que pertencia ao então presidente, Sr. Adelino Gil.

Apesar da instabilidade os candidatos a músicos iam aparecendo cada vez em maior número. Alguns ficavam relativamente pouco tempo mas outros passariam aí a sua vida, assegurando a continuidade da Sociedade Filarmónica.

Associação 8 de Dezembro

Foram alguns anos bastante conturbados, com altos e baixos, mas com os altos sempre a sobreporem-se aos baixos e a banda foi evoluindo e formando não só bons músicos como também grandes Homens.

Com atuações cada vez mais numerosas era necessário oficializar a “banda” , as deslocações eram cada vez para mais longe e a banda tinha de ser reconhecida oficialmente. A banda precisava de estatutos que pudessem reger os interesses não só da “Banda”, mas também dos elementos. Em 1927 foram elaborados e apresentados os primeiros estatutos a todos os membros da Sociedade Filarmónica Silvarense – Associação 8 de Dezembro e que foram aprovados por unanimidade.

Apresentados, aprovados foram registados no Governo Civil de Castelo Branco a 21 de Junho pelo então Governador Civil, Júlio Rodrigues da Silva, Capitão de Caçadores Atª 6 e pelo secretário-geral Dr. Jaime dos Santos Lopes Dias.

 A comissão organizadora foi a seguinte:

  • Ernesto Hipólito de Jesus (Maestro e sapateiro)
  • Casimiro Pereira Brasinha (proprietário)
  • José Ramos Paulos (agricultor)

 Sendo os primeiros sócios, e oficialmente sócios fundadores os seguintes:

  • José Eduardo Gonçalves • António Paschoa Ferreira
  • José Faia • Abílio Gomes
  • António Pires • Joaquim São Martinho
  • José Roda • João António de Almeida
  • Cipriano Gil da Silva Guerra

Trevas das profundezas

Devido à grande necessidade de volfrâmio na Segunda Grande Guerra, as décadas de 1930 e 1940 trouxeram grande desenvolvimento ás minas da Panasqueira e Cabeço do Pião, Foram muitos os elementos que passaram de agricultores a mineiros, trocando a luz do dia pelas trevas das profundezas e deixando de caminhar pelos caminhos cheios de sol para passarem a caminhar na escuridão das galerias que a tanto custo abria as entranhas da terra. Deixara de ser uma vida sem pressas e, literalmente, do dia para a noite ter de cumprir horários e consequentemente o trabalho por turnos.

Nessa época era secretário do director das Minas da Panasqueira o Srº. Joaquim Duarte Pissarra que ajudou a que a banda continuasse em boa forma: não só dispensava os elementos da banda para as atuações, e ensaios como ainda fornecia o transporte.

Das minas era também o Eng. Pompilio que com Dr. Jaime Crespo Pignatelli, conseguiram que a banda não acabasse por falta de elementos disponíveis. Graças à dedicação de todos, nesse período o nome de Silvares era muito badalado no meio musical da região.A nossa “banda” ia a muitos festivais onde obtinha sempre um lugar de destaque nomeadamente no Festival de Bandas da Pampilhosa da Serra que era um dos mais conceituados festivais da região.

Enaltecida pelo “Jornal do Fundão” na sua edição nº 74 de 22 de Junho de 1947 aquando das festas do 1º Ciclo na então Vila do Fundão “Silvares marcou um lugar de destaque nas festas do 1º Ciclo…uma filarmónica que é indiscutivelmente uma das melhores do distrito…”.

Capital do rio

Para as minas, os anos do pós-guerra forma os mais difíceis e, devido à sobreprodução, tiveram de ser encerradas. No ano de 1942 foram extraídas 2.083 toneladas de volframite e 44.318 quilogramas de cassiterite, no ano de 1943 trabalhavam cerca 3000 mineiros. A paralisação obrigou a que muitos dos mineiros se deslocassem para as minas da Urgeira, em Canas de Senhorim, ficando muitos outros à espera que as obras das estradas Barroca-Orvalho e Paul-Cebola fossem iniciadas (in “JF” nº 11 de 7-IV-1946) e que tiveram inicio em Novembro de 1946 (in “JF” 11-XI-1946).

A qualidade da “nossa música” não espelhava as dificuldades enfrentadas pelos seus elementos e pelo povo em geral nesta época muito difícil onde a preocupação diária era a de arranjar comida para o dia seguinte, matar a fome aos filhos. Foi um filho de Silvares, Sr. Aurélio Nunes de Figueiredo que com a ajuda de 1000$00 mensais do Governo Civil, que criou a sopa dos pobres em Silvares e onde eram distribuídos diariamente 46 litros de sopa pelos pobres da freguesia. (in “JF” de 22-VI-46).

No ano seguinte, e para ajudar a superar a crise, foi aprovado o calcetamento da E.N. 238 em Silvares pelo Sr. Ministro das Obras Públicas (in “JF” nº 87 de 14-IX-47). Foram também inauguradas as “…modernas e belas escolas na capital do rio…” (in “JF” nº 90 de 12-X-47) sendo os professores do ensino masculino os senhores professores Alfredo Gil e Vaz de Carvalho, e do ensino feminino a Ex.ª Sra. Professora D. Belmira Figueiredo. A inauguração foi feita pelo Sr. Presidente da Junta, Sr. Dr. Jaime Crespo Pignatelli, e onde se realizou também a 4ª Sessão do Congresso Municipal. A energia elétrica era fornecida todos os dias das 18 ás 23 horas.

Primeiro derby

Mas nem tudo era mau. A 24 de fevereiro de 1948 foi criado o primeiro clube de futebol em Silvares, com o nome de Sport Lisboa e Silvares. “O jogo inaugural foi em Casegas contra o Casa Pia local, no qual se registou um empate a 3 tentos…” (in “JF” nº110 de 7-III-48). Apesar da dureza dos finais da década de 40 início de 50, foram anos muito ricos no ponto de vista associativo. Além do clube de futebol já citado surgiram também em Novembro de 1949 o Sporting Clube de Silvares e a Confraria de S.Vicente de Paulo, presidida pela Sra. D. Belmira Nunes de Figueiredo conforme noticiado no Jornal do Fundão nº 195 de 2 de Abril de 1950. Foi também o primeiro derby realizado em Silvares,”… tendo o Capelo marcado os dois golos da vitória do Sporting Clube de Silvares no dia de Natal do ano passado”.

A necessária divisão dos Silvarenses pelas várias associações, foi seriamente ressentido nos elementos tendo mesmo sido anunciado o seu término. Não passou de um rumor e foi prontamente desmentido no JF 176 de 6/11/49 ”… a filarmónica, longe de acabar, continua em plena vida e a trabalhar pelo seu desenvolvimento e valorização… sob a regência activa e competente do seu mestre, Sr. Aires Júlio de Oliveira.” Na realidade a dificuldade era real, não só por falta de elementos como referido, mas principalmente devido ao falecimento do Sr. Fabião no dia 27 de Dezembro de 1948 com 80 anos. A decisão da direção de não permitir tocar um marcha fúnebre nas cerimónias fúnebres desse “… homem a quem a banda muito lhe fica dever…” (in JF 201)não foi bem recebida pelos músicos.

Santa luzia Sr. Garcia!

O problema foi esquecido e, pelo menos por um tempo, a paz regressou. Mas em 1951, mais precisamente em Maio, o JF volta a referir problemas existentes na banda. Mais uma vez foi prontamente desmentido pela direção na edição 252 de 6 de Maio. “São absolutamente destituídos de fundamento os boatos que o regente da Banda desta freguesia. Sr. Aires Júlio de Oliveira ia deixar de prestar assistência ao nosso agrupamento musical. Sob a sua competente direcção, a nossa banda exibir-se-à dentro em breve estreando nesse dia o seu novo fardamento.

Também a harmonia entre os seus 30 executantes continua a ser a melhor, a todos animando a vontade de aprender para melhor honrar a sua e nossa terra nas festas para que for solicitada a colaboração da Banda…os componentes da nossa Banda têm já fardamento novo. Este será estreado no próximo dia 17 na festa de Nossa Senhora do Miradouro no Fundão…necessário se torna porém, para que a Banda possa viver com relativo desafogo que todos os habitantes desta terra, na medida das suas posses, para ela contribuam com uma cota em dinheiro…”

Não era só a Banda de Silvares que tinha dificuldades. Na região muitas bandas tinham parado definitivamente algumas nunca mais voltariam a ressurgir, ou então muito mais tarde e esporadicamente.

Mais uma vez a população tudo fez para ultrapassar os problemas. Um bom exemplo disso foi a primeira festa em honra de Santa Luzia em Setembro de 1951,como anuncia o “JF” nº 270 “…como o povo de Silvares tem grande devoção a Santa Luzia, vão realizar-se nesta povoação, nos dias 14, 15 e 16 festas em louvor de Santa Luzia que se irão repetir nos próximos anos…”, Devido a divergência com a população do Castelejo no ano anterior, e resolveu festejar a Santa Luzia em Silvares, construindo aqui um belíssimo santuário em sua honra. O grande impulsionador foi o Sr. Garcia e o seguinte diálogo ficou célebre na povoação:

- O que quereis povo de Silvares?

- Santa luzia Sr. Garcia!

Paraninfaram o ato

Estávamos a meio do século XX e a tecnologia começava a chegar a Silvares e já havia 10 pessoas que possuíam telefone, incluindo os postos públicos de Silvares e Ourondo e os correios CTF, os automóveis começavam a cruzar-se e até já havia uma “furgoneta”.

A Banda de Silvares continuava uma das mais resistentes da região e gostava de apresentar, todos anos, algo novo não só para se promover mas também para estimular os elementos a continuar com a mesma energia e vontade. Exemplo disso foi a festa de “inauguração” do novo estandarte em 1952. “Inauguração” essa que teve notícia de destaque na edição 302 do Jornal do Fundão de 20 de Abril de 1952.

“Com grande pompa e regozijo, foi inaugurado no Domingo de Páscoa, pela Banda Filarmónica, um vistoso e rico estandarte, adquirido por subscrição pública, a fim de não onerar a dívida ainda existente a cargo da direção, contraída no ano passado com a compra do novo fardamento e alguns instrumentos.

Paraninfaram o acto a Sra. D. Lucília e o Sr. Dr. Jaime Crespo Pignatelli…Houve uma missa realizada pelo nosso Reverendo Pároco, onde se procedeu à bênção do estandarte na Capela-mor com a presença da direcção e Banda. Após a missa a banda deu uma volta pelas ruas com o estandarte, os padrinhos ofereceram um beberete…felicitaram o Sr. Aires Júlio de Oliveira pelo bom gosto que teve na escolha da insígnia.”

Unidos Futebol Clube de Silvares

Depois de 9 anos consecutivos, foi também em Dezembro de 1952 que o mestre deixou de prestar o seu valioso contributo de reger com maestria a banda que ganhou a reputação de ser uma das melhores da região. Devido a problemas de saúde foi forçado a deixar a banda sem regente. A direção não poupou esforços e encontraram um mestre o 1º Sargento-músico Januário Augusto. Como é apanágio de Silvares foi recebido com pompa e circunstância, conforme descreve o JF nº344 de 15-02-1953. ”Grande aglomeração de povo que lhe tributou calorosa manifestação de boas vindas…Silvares continua a ter uma população com arreigado bairrismo”.

Foi neste ano que também houve a fusão dos dois clubes existentes na freguesia passando a denominar-se Unidos Futebol Clube de Silvares.

Mas a vinda deste mestre para Silvares fez aumentar as despesas o que levou ao apelo de subscrição de novos sócios, que pagariam uma cota não inferior a 2$50.

Em 1954 teve ainda de se fazer uma nova farda para a Banda. As deslocações para as festas eram feitas a pé e ás vezes para bastante longe, o que provocou desgaste e o ingresso de 14 “miúdos” para a banda, pela festa de S Sebastião também a isso obrigou. “Os miúdos portaram-se excelentemente e foram muito aplaudidos no dia da sua estreia”, conforme nos foi contado pelo “ti” Álvaro com grande emoção e confirmado pelo JF 461 de 6-II-1955.

 “Foi nesse ano que se fez uma magnífica festa onde se estriou o novo fardamento! O Padre José Lopes festejou os seus 71 anos de vida em Maio, e 42 de sacerdócio em Silvares. O Dr. Jaime também foi homenageado pelos serviços prestados à comunidade”.

Novo Hospital

Em Outubro de 1955 a Banda alcança mais um grande êxito no Fundão quando abrilhantou a inauguração do novo Hospital, obra para a qual participou com a realização de cortejos para angariação de fundos.

Até 1959 a vida em Silvares ia decorrendo normalmente as dificuldades do dia a dia, as alegrias e as tristezas iam-se sucedendo no seu ciclo normal, até que no dia 21 de Junho um acontecimento deixou em estado de choque a população de Silvares, principalmente as pessoas ligadas diretamente à Banda Filarmónica. O ex-maestro da Banda e um dos sócios fundadores, Ernesto Hipólito de Jesus tinha falecido de uma síncope. Era uma pessoa muito querida na freguesia, e teve uma notícia de destaque no Jornal do Fundão de 28 de Junho “vítima de síncope faleceu…o Sr. Ernesto Hipólito de Jesus de 60 anos, natural de S Vicente da Beira. Há muitos anos residia em Silvares onde gozava de estima qual como o demonstrou o funeral, que foi um dos mais concorridos, foi o primeiro regente da Filarmónica, lugar onde se manteve durante largos anos. Era casado em segundas núpcias com a Sra. D. Delfina Umbelina Roque…”

Foi o falecimento deste homem que desfez o último pilar que mantinha viva a banda. Devido ao grande fluxo migratório para a Europa e Américas a banda já se debatia com problemas de escassez de elementos, os músicos eram poucos e agora ficaram sem regente, apesar de todos os esforços desenvolvidos pela direção presidida pelo Sr. Joaquim Duarte não foi possível manter a Banda em atividade. Foi com muito pesar que a inauguração a Av. Do Brasil, pelo Embaixador desse mesmo país em 1960, foi feita sem a presença, que se tornara habitual nos grandes eventos, da Filarmónica Silvarense.

Letras de 500$00

Em 1962 ainda houve uma tentativa de reerguer a banda, pela direção anterior, ainda se fizeram ensaios e a única saída que efetuaram, foi no dia em que o arcipreste de Silvares e novo pároco Padre Jaime Soares Ribeiro chegou a Silvares, a 1 de Outubro 1962, substituindo o Reverendíssimo Padre José Lopes de Assunção que se aposentou, indo procurar repouso em S Vicente da Beira sua terra natal depois de durante 48 anos ter dirigido e aconselhado os cristãos e amigos que agora ia deixar.

Foi mais um período em que as inaugurações e acontecimentos se assinalaram sem a presença da Banda, a inauguração do novo edifício dos correios e das escolas novas não foram comemoradas ao som das notas musicais da Filarmónica Silvarense. A Banda também não marcou presença no funeral do Padre José Lopes um dos seus fundadores e principal responsável pelo seu surgimento, que falecera a 14 de Março de 1964, com 79 anos, na sua terra natal de São Vicente da Beira. Foram anos de silêncio da música na nossa terra. Alguns resistentes continuavam a afinar os instrumentos e a guardar as letras de 500$00 que tiveram de passar para poder envergar a farda de que tanto se orgulhavam. Mas o tempo passava, o ensaio continuava fechado e os instrumentos acumulavam o pó do abandono. Deixou de se ouvir o som dos instrumentos nos ensaios das quartas-feiras e dos sábados e os músicos deixaram de percorrer a pé por montes e vales a nossa região. Silvares tornou-se muito mais pobre.

Para abrilhantar as festas, Silvares recorria a Bandas de outras localidades. Na festa de S. António em 1965, como noticiado em “Ecos de Silvares”nº 42 - Outubro 1965, “veio cá a Banda de Unhais da Serra.”

Avante! Restauremos a nossa Filarmónica

Novamente foi a força de um homem da terra, o Sr. Casimiro Pereira Brasinha, que iniciara nas lides da música desde o primeiro dia da Banda, que juntou alguns dos antigos músicos e embora em número muito reduzido, conseguiram sair para a rua. Diz-nos o JF 1089 de16 XI 67 “…reina grande regozijo em Silvares, provocado pelo facto de um reduzido número de antigos componentes da nossa famosa Banda, ter tomado a peito o seu ressurgimento … em numero reduzido já saíram para a rua…” Também o “Ecos de Silvares”nº 67-Dezembro 1967 faz alusão ao reinicio da atividade da Banda “…tem percorrido a povoação tocando e cantando as Janeiras a fim de angariar dinheiro para retomar as suas atividades. Avante! Restauremos a nossa Filarmónica”.

Foi o “Ti Casimiro” que tomou conta da regência, e só em Janeiro de 1968 é que foi constituída uma direção, formada por Alberto Inácio Ramos, Joaquim Pires Soares, Belarmino Olímpio dos Santos, João António de Almeida e José Pires Catarino, segundo o JF 1098 de 28-I-1968 e que publicou também no número 1100 de 11-II-68 que fora contratado um novo maestro, o Sr. António Gonçalves do Castelejo, que substituiria o pioneiro do ressurgimento da banda, o “Ti Casimiro”.

 Esse mestre apenas ficaria responsável pela boa qualidade musical da banda até ao mês de Outubro do mesmo ano, quando foi substituído pelo mestre Aires Pantaleão, do Castelejo, que segundo o “Ecos de Silvares”nº73-Junho 1968 vinha a Silvares várias vezes por semana para os ensaios.

No ano de 1969 a banda era formada essencialmente por jovens, visto que os homens de meia-idade tinham na sua maioria emigrado, o que fez com que muitas das bandas da região tivessem acabado, sendo a de Silvares uma das ressurgidas. Com o bairrismo das nossas gentes tudo era possível. Refere-se a esse facto um artigo do JF 1158 de 23-III-69 “Continua com o maior entusiasmo a ação da nossa Filarmónica, dirigida pelo Sr. Alfredo Catarino Morgadinho é composta por elementos jovens que cheios de boa vontade se preparam para o cumprimento da sua missão durante a época de verão, que, devido à falta de Filarmónicas nas circunvizinhanças, se antevê muito trabalhosa. Também…possui já o seu fardamento 7, segundo nos consta, está, graças à actividade da Comissão e à generosidade dos Silvarenses a quem tal auxilio foi solicitado, praticamente pago, …”

Época de 1978

Nos anos que se seguiram a Banda de Silvares não teve mãos a medir, os convites para abrilhantar festas eram muitos e nem todos podiam ser satisfeitos. As deslocações iam desde as terras vizinhas, Ourondo, Castelejo, Barroca, etc., até a povoações mais longínquas, distrito da Guarda, Celorico da Beira, Pampilhosa, etc. O trabalho era muito, mas a vontade de tocar e o amor pela música era ainda maior.

Outro dos motivos que levava a direção presidida pelo Sr. José Dias Fernandes Delgado a aceitar muitos convites era a necessidade de dinheiro para arranjar alguns instrumentos e os encargos com o novo mestre, Sr. António Gonçalves Marcelino do Castelejo, que se encontrava ao serviço da banda desde Janeiro 1974, conforme noticia o “Ecos de Silvares” nº 133 – Março 1974 .

Apesar das muitas dificuldades das gentes de Silvares e da própria Filarmónica, foi necessário em 1975 fazer novo fardamento devido ao mau estado em se encontrava pelo excesso de uso. A generosidade do peditório de natal foi proveitosa e o novo fardamento foi estreado na procissão da ressurreição de 1975, segundo o “ES”146-Abril 1975.

No dia 5 de Junho de 1977, Silvares teve o seu primeiro mestre oficial, como noticiado no JF 1588 de 17 de Junho “Perante um júri do Conservatório de Musica de Castelo Branco, constituído pelo Delegado do Sindicato dos Músicos do Distrito e dois mestres de bandas, prestou exame para mestre de banda, no dia 5 do corrente o Sr. José Pereira Gaspar, atual regente da Filarmónica Silvarense, ficando aprovado.”

O final do ano seria menos feliz, visto que muitos elementos comunicaram a sua indisponibilidade em continuar nas fileiras da banda. ”Não se pode dizer que tenha terminado da melhor maneira a época para a Banda de Silvares. Assim, e nas primeiras reuniões tidas pela Direcção e elementos daquela Associação, alguns elementos participaram a sua saída, o que pôs em risco a continuação da mesma…A saída de elementos influentes não dão bom andamento da Banda, o resto dos elementos resolveu prosseguir, não deixando assim, morrer uma das expressões culturais mais antigas da nossa terra…” (in JF 1615 de 23-XII-77) Os efeitos da emigração continuava a deitar abaixo os últimos resistentes da região. A força dos Silvarenses foi mais forte e conseguiu que ela não se extinguisse. A sensatez de alguns veio ao de cima e o esforço e dedicação de muitos ajudaram a superar as dificuldades de tal maneira que a época de 1978, sob a regência do mestre José Pereira Gaspar, foi uma das mais proveitosas dos últimos anos.

Caras femininas

A crise estava ultrapassada e a Banda singrava por caminhos de glória e sucessos. Alem das festas que abrilhantava, ainda participava em encontros de Bandas, concursos etc. Um dos convívios foi realizado no Cartaxo onde também se encontrava a banda de Louriçal do Campo e da qual era mestre o Sr. Joaquim Cabral, que também regia a de Silvares. Esse mestre, Sr. Joaquim Cabral foi um dos regentes mais influentes na Filarmónica Silvarense, amigo do Sr. Joaquim António Ribeiro Caldas, então presidente da Direcção e que o convidara a vir para Silvares.

Chegou, renovou todo o reportório, sendo muitas das partituras de sua autoria, “fez” muitos músicos e a qualidade da já famosa Banda subiu ainda mais.

Foi sob a sua batuta que as primeiras caras femininas foram vistas na banda de Silvares em 1979, foi uma viragem nas mentalidades do povo e em especial da banda, porque até então a música era tocada exclusivamente por “homens de barba rija”, mas a decisão da entrada de “moças" foi bastante acertada, porque muitos jovem se seguiram e o elenco da banda passou a contar com muitas caras jovens de ambos os sexos. Á experiência dos mais velhos juntou-se a força dos jovens o que veio dar uma nova alma à Filarmónica.

Durante a década de 80 a banda estava num auge de muito sangue novo e de um repertório rejuvenescido. Exemplo disso foi o 1º prémio alcançado pela banda num concurso de bandas organizado pela Câmara do Fundão nas comemorações do 5 de Outubro 1981.Foi um êxito estrondoso, com uma assistência de algumas centenas de pessoas. Muitos Silvarenses assistiram e aclamaram. Noticia do “Ecos de Silvares” 219-Novembro 1981.

Pendurados num prego

Os anos iam decorrendo e a Banda continuava o seu trabalho, abrilhantando muitas festas na época de verão, algumas nas épocas “baixas” dando uns concertos em alguns cantos do concelho e não só, mas era nessas épocas baixas que o trabalho era desenvolvido. A formação de novos músicos, os ensaios de novas partituras e a mudança de repertório para que houvesse algo de novo a apresentar aos amantes da boa música e ao público em geral.

Depois de um período alto veio um bastante baixo. Mais uma vez a emigração aplica um golpe ao número de elementos, devido ao grande fluxo migratório do final da década com destino à Suiça, Por falta de elementos, a música voltou a parar de se ouvir ás quintas no ensaio. Devido à falta de executantes, o que aliás sempre fora o grande problema, os instrumentos pendurados num prego ou dentro de uma mala não conseguem tocar, e o componente humano está em falta. Sem sangue, a Filarmónica Silvarense acabou.

 São mais alguns os anos que passam até que, um Homem, Sr. Hermínio Gaspar Lopes, grande amante da música em geral mas da banda em particular conseguiu o que muitos diziam impossível. Com a ajuda de alguns amigos que convidou formou nova direcção,.

Beijo de Amor

Com muito sacrifício e dedicação, convenceu alguns antigos músicos da terra a regressar ás lides musicais, foi buscar elementos às extintas bandas do Castelejo e S. Jorge da Beira para reforçar o grupo, e sob a regência do mestre Alfredo Catarino que regressara a Silvares conseguiu-se que os sons saídos dos instrumentos que estavam no pó há já algum tempo, voltassem a soar nos ouvidos dos Silvarenses.

Muitos foram os jovens que ingressaram nas fileiras da banda, ainda com pouca ou nenhuma formação e que era necessária  o mais rapidamente possível dada o reduzido numero de elementos.

Era necessária a escolha entre a qualidade e a formação mas depois da formação, a qualidade vem por acréscimo e foi o que de facto aconteceu. A isso também muito ajudou o regresso do mestre Sebastião em 1996, e onde já estivera na década de 70.

Foi também sob a batuta do Mestre Sebastião que em Abril 2003 se gravou um CD com os mais conhecidos números da banda, desde a Alvorada ao Beijo de Amor, numa compilação, para que os filhos de Silvares nunca deixem esquecer a Sociedade Filarmónica Silvarense. Mais tarde, no ano de 2004, foi gravado um outro CD durante o concerto efectuada no Festa de Santa Luzia em Silvares.

Carlos 

A Sociedade Filarmónica Silvarense além do ritmo da música também segue o ritmo do tempo. Foi o acerto desse ritmo que elegeu como presidente o Srº Carlos Morgadinho. O rumo estava traçado e a formação de músicos, mais do que nunca, era a nova prioridade. Após a sucessão de presidente também a regência foi cedida ao Prof. Carlos Salazar e a 3 de dezembro de 2005 a filarmónica inciou um novo percurso, com novos objectivos de evolução musical e formativo. Mas houve um sonho antigo que persistiu, o sonho de uma casa que fosse "só nossa". O sonho começou a materializar-se com a compra da "casa da lameirinha", antiga padaria, e que era, nada mais nada menos, que o local do antigo palheiro onde se ensaiaram as primeiras notas. Os anos passaram, além das obras também os formandos cresceram e pela primeira vez seguiram a profissional carreira de músico. 

Casa dos Pilares

19 de julho de 2015 foi, definitivamente, o dia mais memórável da nossa Filarmónica. Estava oficialmente inaugurada a Casa dos Pilares casa de músicos e da música de Silvares. Foi também este o dia usado como homenagem a pessoas que muito deram para que estas paredes fossem levantadas. Foram homenageadas os presentes mas sobretudo os que já não estão, neste dia, ao nosso lado. Pessoas como Antonio Carvalho Bráz ou o nosso "Ti" Ramiro serão inesquecíveis na nossa história e memória recente.

 

Os nossos agradecimentos são para os testemunhos de:
D. Maria Delfina Nunes D. Maria Nazaré Pereira D. Maria das Dores Gaspar
D. Madalena Pignatelli Sr. António Ferreira Sr. José Rosa
Sr. Armando Teotónio Sr. Joaquim Morgadinho  Sr. José Pereira
Sr. António André Sr. Carlos Ramos Sr. Paulo Morgadinho
Os arquivos de 
Jornal do Fundão Junta de freguesia de Silvares Rev. Párocode Silvares, Padre Carlos
Agradecimento mais especial para:
Sr. Virgílio Ramos Barroca e esposa   Sr. Álvaro Ferreira Alentejano
Filipa Diogo Sara Sardinha Celina Barroca
     
Texto de José Barroca
Adaptação e atualização por Paulo Domingos

 

 

 

Nota: Os factos relatos aqui estão ainda em actualização e podem ser corrigidos a qualquer momento.